
A Gisele, às vezes, me vem com cada pergunta difícil que eu até fico imaginado o desespero da mãe dela quando a Gi ainda era criança, tentando sobreviver à conhecida fase dos “porquês”. Como a pequena Rory Gilmore, que um dia perguntou para a Lorelai o que, afinal, era uma cor. Ora, por que, diabos, uma criança vai querer saber o que é uma cor ??
Pois bem, a dúvida semeada pela Gisele em seu blog foi a seguinte: sempre teremos de ser contra ou a favor ou é possível ficarmos em cima do muro? Confesso que fiquei um bom tempo buscando uma resposta, principalmente porque sempre me considerei uma criatura à beira da alienação. Nunca me interessei muito por política, nunca participei de nenhum protesto, se fui líder de turma no segundo grau, foi mais pela possibilidade de organizar as festas do que pra fazer parte do movimento estudantil. Confesso que muitas vezes me senti inspirada por algum livro, filme ou mesmo uma matéria de jornal e pensei: vou me engajar ! Mas, infelizmente, meu entusiasmo só durava até eu encontrar algo que me chamasse mais a atenção.
Muitas vezes me senti triste e até mesmo um pouco inferior em função da minha falta de posicionamento. Tão bonitos os discursos inflamados, as críticas implacáveis, as defesas ensandecidas… Tão inteligentes, tão altruístas, tão extraordinários aqueles que mantêm a firmeza de suas crenças acima de qualquer situação…
Mas, então, vieram Maffesoli, Lipovetsky e alguns outros franceses (nem todos com nomes terminados em “iii”) e descobri que não se posicionar é a forma mais radical de tomar partido em tempos de pós-modernidade. Ignorar o debate é a forma mais eficaz de torná-lo obsoleto. Não participar é a forma mais atual de fazer acontecer.
O que nos move hoje, para Maffesoli, é aquilo que, por alguns instantes, consegue nos capturar a atenção. Identificações sucessivas, paixões efêmeras, interesses momentâneos, atrelados às diferentes personas que compõem o sujeito fragmentado. Ser volúvel está na moda. Ser volátil é o que se almeja. Tudo o que é sólido se desmancha no ar.
Por outro lado (e a tal pós-modernidade é cheia de outros lados), há certas coisas às quais nos apegamos com tamanha gana que é difícil acreditar que a vida possa ser só indecisão. Algumas idéias nos acompanham por tanto tempo e interferem de tal forma no modo como vemos e julgamos o mundo que, mesmo sem querer, nos fazem assumir uma posição.
O resumo da história é: depende. A algumas coisas é possível sermos indiferentes porque, talvez, simplesmente não nos despertem paixão, fúria ou ao menos curiosidade. Em relação a outras coisas, no entanto, somos impelidos a optar por um lado ou outro. E é isso. (Será que essa resposta não ficou muito em cima do muro ???)
* Pra quem não sabe, Humpty Dumpty é essa figurinha ovalada da ilustração acima. Sempre em cima do muro, ele aparece no livro Alice no País dos Espelhos, de Lewis Carrol.

4 comments
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Outubro 1, 2007 às 4:42 pm
Gisele
Amiga, só tu mesmo para dar uma resposta assim. Me ensina a escrever?
Pois então, não sei se a minha mãe sofreu, mas os namorados, ah coitados, esses sim. Sempre cheia de dúvidas e questionamentos… e tantas vezes em cima do muro!!
Eu também me sinto inferiorizada em algumas situações por não ter uma opinião clara. Só que no fundo não acho ruim. Não vejo como uma questão de alienação, acho que em alguns casos é uma forma de usar mais a razão e ficar livre de pré-julgamentos. Mas a impressão que eu tenho é que, de maneira geral, a sociedade condena quem não tem uma posição firme.
Volúvel e volátil parecem termos depreciativos… prefiro dizer que sou flexível.
Adorei:
“…descobri que não se posicionar é a forma mais radical de tomar partido em tempos de pós-modernidade. Ignorar o debate é a forma mais eficaz de torná-lo obsoleto. Não participar é a forma mais atual de fazer acontecer.”
Outubro 2, 2007 às 3:08 pm
Sandra Bordini
Primeiro lugar: que produtividade absurda esse blog, fico dias acompanhando e de repente…TCHUM!!! Três posts num dia só!!!
Segundo:
Teca, eu já mencionei no blog do Alex que quero ser que nem tu quando eu crescer e é verdade, porque tu tem uma maneira de explicar as coisas prá deixar qualquer um no chinelo.
Eu sempre fui a pessoa que não sabe posicionar aquilo que pensa…em cima do muro? Não sei, o meu problema foi nunca saber se o que alguma pessoa estava falando era digno de crédito absoluto, ou não!!! Nunca, ao ouvir alguem falar, cheguei a conclusão: “pôxa, esta pessoa está absolutamente certa”, ou o contrário. Sempre fui a pessoa do relativismo, e entre um “depende” e outro acabo não falando nada para não cansar ou irritar as pessoas…
Foi aí que eu resolvi entrar para a academia. Fazer mestrado…doutorado…quem sabe aí terei os argumentos necessários para analisar a situação como um contexto e finalmente ter uma opinião concreta. Pois bem, entrar no mestrado só fez com que aquela batata quente que eu tinha antes na boca aumentasse ainda mais. Ao invés de porquês, só descubro mais por quês, mais talvez, mais dependes.
Mas isso é bom. Se no Big Brother estar em cima do muro significa ser eliminado, na vida real é justamente o contrário. A vida útil das ideologias de plantão é muito curta, mas os relativismos estão aí para ficar. Me arrisco a dizer que o relativismo não é novidade da pós-modernidade, mas que neste período ele teria ganhado mais notoriedade apenas.
Esta frase:
“e descobri que não se posicionar é a forma mais radical de tomar partido em tempos de pós-modernidade. Ignorar o debate é a forma mais eficaz de torná-lo obsoleto. Não participar é a forma mais atual de fazer acontecer.
Explica tudo…
Outubro 3, 2007 às 3:03 pm
Teca
Sandra, tens toda a razão ! A vida útil das ideologias é cada vez mais curta. Cada vez que a gente pensa “é isso”, logo vem alguém pra nos mostrar que já não é mais.
Respeito e admiro totalmente a tua postura em preferir informar-se e aprofundar-se um pouco mais nos fatos antes de sair por aí tomando partido e impondo “verdades” aos quatro-ventos como muita gente faz. Relativizar, contextualizar e, principalmente, saber do que se está falando é a atitude mais inteligente que se poderia esperar de um acadêmico ou mesmo de um cidadão que busque um pouco de autonomia em relação ao mundo em que vive.
Já dizia aquele ditado: quem abre a boca engole mosca, hehehehe.
Outubro 3, 2007 às 3:12 pm
Teca
AH ! Obrigada, mais uma vez, pelo apoio a este bloguinho pouca-prática ! Simplificar o que é complexo, muitas vezes, pode até atrapalhar. Além disso, Heidegger dizia (segundo meu amado mestre) que filosofia não é pra ser aplicada. O pensamento pertence ao mundo das idéias e lá deve permanecer. Mas, particularmente, eu procuro tentar enxergar como essas idéias interferem de forma bem concreta no meu mundinho. Eu posso até não ter criado nada muito brilhante, mas fico feliz em conseguir passar o que me espanta ou me interessa, fazendo assim – quem sabe – com que outras pessoas possam se interessar.